No início do ano, endividamento das empresas esteve em R$ 93 bilhões, com tendência de alta para a próxima safra; logística é um dos principais segmentos impactados pela falta de aporte

Usineiros ainda convivem com endividamentos  anteriores que podem crescer ainda mais nesta safra Usineiros ainda convivem com endividamentos anteriores que podem crescer ainda mais nesta safra
Foto: Divulgação

São Paulo – Déficit de açúcar no exterior, demanda crescente para o consumo doméstico de etanol, clima favorável e manutenção nos custos de produção são alguns dos fatores que compõem plano de fundo positivo para as usinas de cana-de-açúcar nesta safra.

Com níveis de remuneração mais altos para os subprodutos do setor sucroenergético, esperava-se uma retomada nos investimentos que não veio, travada, sobretudo, pelo nível de endividamento que ainda se mantém alto. “Vemos um Brasil que vai voltar a crescer, o cenário é positivo e há condições. Achamos que os investimentos devem acontecer, mas ainda não aconteceram”, enfatizou ao DCI o diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Aurélio Amaral, durante o NovaCana Ethanol Conference, ontem, na capital paulista.

Em meados de março, o sócio da consultoria MB Agro, Alexandre Figliolino, disse à imprensa que as dívidas do segmento giravam em torno de US$ 150 por tonelada na temporada 2015/ 2016, 15% superiores ao ciclo anterior, totalizando cerca de R$ 93 bilhões e com tendência de alta para o curto prazo, impactada pelos efeitos do dólar alto até o início do ano e do fluxo de caixa negativo das empresas.

“Hoje não temos praticamente nenhum novo investimento no setor, só vemos migração de produtos dentro das próprias usinas”, concordou o diretor de combustíveis renováveis do Ministério de Minas e Energia (MME), Ricardo Dornelles. Para ele, enquanto não houver aumento na capacidade de moagem de cana, será difícil atender a demanda dos dois subprodutos. “Nosso problema hoje não é mercado, temos mercado para crescer”, acrescentou.

Entrave logístico

A logística de distribuição de etanol é o fator mais prejudicado pela falta de suporte financeiro. São Paulo é o grande consumidor porque também é o maior polo produtor, as usinas estão localizadas estrategicamente tanto para o mercado interno, quanto para encaminhamento aos portos, para exportação.

O executivo da ANP cita as usinas goianas como exemplo deste problema. “Goiás tem potencial de produção mas está longe. Há o projeto do duto, que está pronto na parte sudeste, até Uberaba (MG) e Uberlândia (MG), mas ainda precisam chegar a Goiânia. Com isso, o transporte apenas por meio de caminhões onera o processo e tira competitividade do produtor”, explicou.

Em suma, atualmente, a logística do etanol é ancorada na da gasolina, e a falta de um sistema específico é o que afeta os ganhos reais do usineiro da Região Centro-Oeste.

Uma das saídas sugerida por Amaral é a realização de contratos pela BM&FBovespa com entrega física do biocombustível, uma medida que permite ao setor travar os valores de venda do produto e negociar o melhor momento para a comercialização. Apesar de ser algo ainda insipiente, “já pedimos os elementos para que os produtores levassem seus contratos para a Bovespa”, lembrou.

Açúcar

Na última semana, o Indicador Cepea/Esalq do açúcar cristal no mercado paulista, fechou a R$ 86,05 por saca de 50 kg, o maior patamar nominal de toda a série histórica do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), iniciada 2003. Entre 13 e 20 de junho, o Indicador subiu 3,53% e, na parcial deste mês, o aumento já é de 11,36%. Segundo pesquisadores do instituto, embora o momento seja de safra no centro-sul, a oferta de açúcar cristal está reduzida no mercado interno, devido às chuvas no início deste mês, que atrapalharam a moagem da cana-de-açúcar.

O gerente do departamento de pesquisa setorial do Rabobank, Andy Duff, destacou durante o evento que os preços praticados pelo açúcar brasileiro subiram 48%, valor mais alto entre os maiores países fornecedores em função da desvalorização da moeda nacional. Nos concorrentes Índia e Tailândia, este percentual representa 19% e 21%, respectivamente, enquanto a cotação internacional subiu 10%.

No Brasil, o frio mais intenso previsto para o inverno pode colaborar para a melhora da produtividade, visto que os canaviais estão com taxas de renovação cada vez mais baixas. “Capacidade existe, mas precisaremos de tempo bom para moer”, ressaltou o sócio analista da Agroconsult, Fábio Meneghin.

Nayara Figueiredo

Fonte : DCI

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