Pela primeira vez em dez anos, os frigoríficos brasileiros de carne bovina atingiram mais de 90% do volume de vendas de cortes especiais à União Europeia, ao qual têm direito dentro da cota Hilton, que tem benefícios tarifários.

De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), os frigoríficos do país exportaram 9,2 mil toneladas de carne bovina in natura no ano-cota 2015/2016, que terminou em junho. A cota Hilton destinada ao Brasil é de 10 mil toneladas anuais. A estimativa da entidade é que as vendas dentro da cota renderam US$ 105,5 milhões.

Para os frigoríficos, exportar pela cota Hilton é vantajoso. Além do preço médio mais elevado dos cortes nobres, paga-se menos imposto. A tarifa de importação dos cortes de carne bovina comercializados por meio da cota Hilton é de 20%, enquanto nas vendas extra-cota a tarifa é de 12,8% mais € 303,4 por 100 quilos de carne bovina.

Apesar do benefício, o cota Hilton virou sinônimo de queixa dos exportadores de carne do país em 2008, quando a União Europeia restringiu as compras de carne do Brasil a uma lista de fazendas de gado bovino rastreadas. A restrição se somou à exigência dos europeus para que a carne bovina exportada por meio da cota Hilton fosse oriunda apenas de animais rastreados desde a desmama (10 meses de idade) e alimentados exclusivamente a pasto.

Desde então, as empresas brasileiras vinham tendo dificuldades de cumprir a cota Hilton. Entre os anos-cota de 2007/2008 e 2013/14, o melhor desempenho foi 40,8%. A situação melhorou de modo significativo no ciclo 2014/15, chegando a 80%.

Na avaliação do diretor-executivo da Abiec, Fernando Sampaio, a evolução gradual do desempenho brasileiro na cota Hilton se deve ao esforço organizado da cadeia produtiva para atender sobretudo ao critério de rastrear o animal desde a desmama. No início, os pecuaristas que produzem bezerros não recebiam o “prêmio” por cumprir os critérios mais exigentes, o que desestimulava a produção e reduzia a oferta de bovinos aptos à cota Hilton.

Com o tempo, a cadeia produtiva se organizou para pagar um preço diferenciado ao produtor de bezerros. A partir da agora, cumprir a cota será o novo padrão, projetou Sampaio. “Agora que se conseguiu essa coordenação, possivelmente continuaremos cumprindo”, afirmou.

Além da coordenação da cadeia produtiva, a escassez de carne bovina em importantes exportadores, como EUA e Austrália, também aumenta a demanda pelo produto brasileiro, acrescentou o gerente de inteligência de mercado da Minerva, Leonardo Alencar.

Sampaio, da Abiec, minimizou o efeito da menor concorrência. Na comparação com o total exportado pelos frigoríficos para a União Europeia, o volume comercializado pelo Brasil via cota é pequeno. Anualmente, o país vende cerca de 100 mil toneladas aos europeus, considerando os negócios extra-cota. Afora isso, cada país tem a própria cota e, em um cenário de restrição de oferta, dariam preferência às vendas com vantagens tarifárias.

Além do Brasil, Argentina, Austrália, Uruguai, Nova Zelândia, EUA, Canadá e Paraguai têm direito a volumes dentro cota. A quantia total da Hilton é de 65,25 mil toneladas por ano-cota. Com 28 mil toneladas por ano, a Argentina tem a maior fatia da cota.

No caso da Austrália, terceiro maior exportador mundial, a fatia é de 7,15 mil toneladas. Por sua vez, EUA e Canadá têm uma cota conjunta de 11,5 mil toneladas. A Nova Zelândia tem direito a 1,3 mil tonelada e o Uruguai, a 6,3 mil toneladas.

  • Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo
  • Fonte : Valor

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