Ruy Baron/Valor DF

Liberada pelo Conselho de Ética da Presidência da República de cumprir quarentena, Kátia Abreu quer reassumir a CNA

A mais de um mês da votação definitiva do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff no Senado, a ex-ministra da Agricultura Kátia Abreu, que é senadora pelo PMDB de Tocantins, conseguiu aval do Conselho de Ética da Presidência da República para não cumprir quarentena prevista em lei e, assim, ser liberada para assumir outros compromissos profissionais.

Kátia decidiu pedir permissão para descumprir a quarentena de seis meses imposta a ex-autoridades do governo para voltar à presidência da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Ela está licenciada da entidade desde o início de 2015, quando se tornou ministra, mas atualmente, depois de ter se tornado amiga e defensora de Dilma, enfrenta grande resistência da diretoria da CNA e da maioria das federações de agricultura filiadas à entidade.

O estatuto da CNA é omisso sobre essa possível volta – o que, pelo menos aparentemente, abre caminho para que a ex-ministra, agora com o sinal verde do Conselho de Ética da Presidência da República, reassuma seu comando a qualquer momento. Kátia fez o pedido ao conselho em maio, depois que voltou ao Senado. Ela argumentou que não havia conflito de interesse em reassumir imediatamente a CNA, uma entidade de classe sem fins lucrativos. No dia 29 de junho, o conselho acatou o argumento e a dispensou da quarentena.

O relator do processo, o conselheiro Mauro de Azevedo Menezes, afirma em seu parecer que Kátia Abreu não está prestes a “aceitar” um cargo na CNA, e sim de “retornar à função que já ocupava” e da qual se afastou justamente para assumir o Ministério da Agricultura. “Desse modo, não terá sido o exercício da função ministerial que lhe ofertará privilégios na ocupação de função representativa da categoria econômica, até porque tais atribuições já eram desempenhadas anteriormente”, alegou.

Procurados, Kátia Abreu e CNA não quiseram se pronunciar. Segundo o relatório do conselho, ao qual o Valor teve acesso, o sucessor de Kátia e atual presidente da CNA, João Martins, alegou “haver um impedimento legal para o retorno da consulente [Kátia Abreu] ao seu mandato de presidente da entidade”. O texto não detalha qual seria esse impedimento, mas, provavelmente, trata-se da quarentena da qual a ex-ministra foi dispensada. Segundo o conselho, a CNA também apresentou uma nota técnica nesse sentido.

Kátia, que foi reeeleita presidente da CNA em 2014 para um mandato que terminará em dezembro de 2017, perdeu apoio do setor rural antes mesmo da abertura do processo de impeachment de Dilma pela Câmara, quando a CNA e praticamente todas as grandes entidades representativas do segmento passaram a defender abertamente o afastamento de Dilma.

Com isso, sua condição de líder do agronegócio no país foi colocada em xeque, como avaliam diversos representantes do setor. Nos dois primeiros meses do afastamento temporário de Dilma, a senadora adotou um comportamento discreto e evitou aparições públicas desde que retornou ao Senado. Mas, agora, pretende levar às últimas consequências sua intenção de voltar à presidência da CNA, ainda que 26 das 27 federações de agricultura do país defendam sua renúncia. Apenas a federação de Tocantins, Estado pela qual se elegeu senadora, é sua aliada.

Ela confidenciou a amigos que quer confrontar a atual diretoria da CNA, a qual acusa de traição, e sinalizou que sua intenção é reassumir o cargo apenas após o afastamento definitivo de Dilma, se de fato isso acontecer. Outrora aliado, o baiano João Martins já se posicionou várias vezes contra a volta da senadora à entidade e a favor da antecipação das eleições na casa, já que tem sido apontado como candidato natural a permanecer no comando da CNA.

Por Cristiano Zaia | De Brasília

Fonte : Valor

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