Ana Paula Paiva/Valor

Figliolino, sócio da MB Agro: parte dos alvos está em recuperação judicial

Existem ao menos 15 grupos sucroalcooleiros – que processam cerca de 26% da cana-de-açúcar do país – com dificuldade para encontrar a porta de saída da crise e que se tornaram os candidatos mais prováveis a serem adquiridos em um novo ciclo de consolidação do setor. Esse é o cálculo do especialista Alexandre Figliolino, sócio da consultoria MB Agro, apresentado ontem no Novacana Ethanol Conference.

Um processo de consolidação dessa proporção, porém, ainda é visto com desconfiança tanto pelo setor produtivo como pelos bancos por causa das incertezas em relação ao futuro do segmento e pelas dúvidas a respeito do cenário macroeconômico do país, conforme especialistas e fontes do setor presentes ao evento.

Segundo Figliolino, esses 15 grupos são os que estão em recuperação judicial ou em reestruturação forçada de dívidas e que “quase entraram em default”. Tais companhias têm capacidade para moer 142 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por safra.

A quantidade de usinas fragilizadas e suscetíveis a aquisições pode ser ainda maior se forem incluídas as que não chegaram a reestruturar suas dívidas, mas cuja alavancagem – relação entre dívida líquida e lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) – é considerada elevada, ou que têm suas operações desestruturadas atualmente.

Em um ambiente de alta alavancagem, segundo Figliolino, “teria que haver uma sequência grande de preços muito bons” para que elas saiam da crise sem ser pela via da fusão ou da aquisição. Para estas, “com a taxa de juros elevada e esse spread no mercado financeiro, é praticamente impossível sair da crise”, emendou. “Até [essas empresas] se recuperarem, podemos estar em ciclo de baixa do preço de açúcar, a não ser que haja um estímulo de política pública em relação ao etanol”, observou.

Esse outro conjunto também fragilizado de usinas soma 12 companhias, que processam 70 milhões de toneladas de cana por safra e, de forma geral, têm alavancagem superior a 4. Portanto, no frigir dos ovos, há 27 grupos com capacidade de processar 39% da matéria-prima do país passíveis de mudarem de mãos.

Já os potenciais compradores dessas usinas representam quase a mesma proporção do setor. Na avaliação da MB Agro, existem 17 grupos que podem processar 205 milhões de toneladas de cana e representam 38% do setor que “estão prontos para crescer se quiserem”. Segundo Figliolino, esses grupos têm uma alavancagem abaixo de 3, além de uma boa capacidade de atrair capitais e um bom perfil de endividamento.

O gatilho para um processo de concentração, porém, deverá enfrentar barreiras do lado dos compradores. Na visão do consultor, qualquer decisão de crescimento por parte desses grupos “vai ser extremamente seletiva” dadas as restrições de crédito no país e as incertezas macroeconômicas.

Os aportes que essas companhias podem fazer deverão ser direcionados, em sua avaliação, primeiramente à fabricação de açúcar, depois à redução de “gargalos industriais” e, apenas em terceiro lugar à aquisição de outras usinas.

Há um quarto conjunto de usinas, formado por 21 empresas, que “ainda não têm balanço para investir” em crescimento, mas que podem ver essa possibilidade com bons olhos se o cenário de preços elevados de açúcar se mantiver pelos próximos dois anos.

Esse grupo, que tem capacidade de processar 121 milhões de toneladas de cana e representam 23% do setor, “pode chegar ao fim da safra 2017/18 com capacidade razoável de investimento”, acredita Figliolino. Em geral, essas companhias apresentam uma alavancagem entre 3 e 3,5 vezes, com tendência “clara” de redução dessa relação, disse.

Embora existam diferenças financeiras consideráveis entre esses quatro grupos de usinas, houve na safra passada uma deterioração da saúde financeira do setor como um todo. Nos cálculos da MB Agro, a relação média entre dívida líquida e Ebitda das companhias subiu de 4,3 vezes na safra 2014/15 para 4,7 vezes na temporada passada, um crescimento de 9%.

Em relação à produção agrícola, o endividamento médio da safra passada foide R$ 148 por tonelada de cana-de-açúcar, pela estimativa da consultoria, o que representa um aumento de 11% sobre a safra precedente.

Já o banco holandês Rabobank estimou, com base nas 35 empresas que atende no segmento, que o endividamento recuou em relação à produção agrícola de R$ 149 por tonelada de cana e passou para R$ 143 por tonelada em 2015/16. Essa diminuição, porém, ocorreu “em função do crescimento da moagem, e não em função da redução da dívida”, disse Manoel Pereira, gerente sênior de relacionamento do Rabobank durante a conferência. Dessa forma, a estimativa da instituição para o endividamento do setor na última temporada ficou em R$ 93,7 bilhões.

O endividamento líquido total do setor na safra passada, porém, deve ter sido maior, nos cálculos da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica). Segundo a entidade, que representa usinas do Centro-Sul, a dívida líquida das empresas no fim da safra 2015/16, em março, era de cerca de R$ 100 bilhões, um crescimento de 25% em relação ao endividamento da safra anterior.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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