Clima, que promete ser favorável, não anima produtor ao plantio

Clima, que promete ser favorável, não anima produtor ao plantio

Os prejuízos devido ao excesso de chuva nos dois últimos anos e a falta de liquidez têm afastado o interesse dos produtores em plantar trigo na safra de inverno. A Emater-RS vai lançar, em breve, o primeiro levantamento de intenção de plantio para a cultura em 2016. A tendência, apurada junto a cooperativas, revendas de insumos, produtores de sementes e agentes financeiros, é de uma redução entre 10% e 20% na área. Na última safra, quando foram cultivados 913 mil hectares, a queda foi ainda maior, de 23%. A janela de semeadura começa no dia 15 de maio e se estende até 20 de julho.

As boas notícias, em contrapartida ao observado nas últimas safras, vêm da previsão climática. O El Niño, responsável pelas precipitações excessivas na pré-colheita que fizeram despencar a produtividade e a qualidade no ano passado, está enfraquecendo e deve dar lugar ao La Niña no último trimestre, com a umidade ficando abaixo da média. “Para culturas de inverno, é uma condição favorável. Confirmadas as previsões, a expectativa é de produtividade elevada, uma vez que temos sementes de alto potencial produtivo, tecnologia e produtores capacitados”, projeta o engenheiro agrônomo da Emater, Cláudio Dóro.

As previsões, entretanto, não são suficientes para animar a todos. O agricultor Alexandre Pollo, de Passo Fundo, por exemplo, desistiu de plantar trigo. Após reduzir a área por dois anos, plantando 15 hectares em 2015, quando foi obrigado a acionar o seguro, vai apenas cultivar aveia para cobrir a terra para a próxima safra de verão. “Independente de preço e clima, que dizem que vai ser melhor, não vou correr o risco, pois o custo da lavoura ainda está muito alto”, destaca. Segundo Pollo, cada hectare requer um investimento de R$ 1,6 mil. “Os insumos, cotados em dólar, aumentaram e o preço pago ao produtor não estimula”, completa Pollo.

O desembolso, alerta Dóro, se refere apenas aos custos variáveis, sem contar mão de obra, desgaste com maquinários, combustível, entre outros fatores. “Para pagar o custeio, tem que colher acima de 50 sacas. Ou seja, o produtor arranca comprometido com a necessidade de altas produtividade e qualidade”, afirma o agrônomo. Além disso, é preciso enfrentar a falta de liquidez. Segundo a Emater-RS, o consumo se manteve estável enquanto os estoques mundiais estão altos, na casa de 220 milhões de toneladas. “Ainda assim, é importante que o produtor tenha uma cultura de inverno para diluir custos fixos da lavoura e diminuir a dependência do verão”, pondera.

De acordo com o Sindicato da Indústria do Trigo (Sinditrigo-RS), a demanda gaúcha deve ser de 1,6 milhão de toneladas em 2016, redução de 5% na moagem em relação ao ano passado. Em 2015, 360 mil toneladas foram importadas da Argentina e do Paraguai devido à falta de matéria prima local. Com a diminuição da intenção de plantio esperada para esse ano, as compras externas tendem a crescer em 20%. “A importação é feita para nos adequarmos a qualidade que nos é exigida de nosso clientes”, explica o presidente do Sinditrigo-RS, Andreas Elter.

Para Elter, as sementes utilizadas no Estado tem ótimo potencial genético. Além disso, houve evolução em produtividade e qualidade reológica nos últimos anos, sendo a questão climática o grande entrave no período. “O que ainda pode ser feito é a separação das variedades em tipo, fomentando esse tipo de segregação por região ou cooperativa, de modo a criar padrões mais definidos para o trigo”, completa. Tais questões, inclusive, estão sendo discutidas na Câmara Setorial Regional do Trigo com objetivo de criar maior liquidez e a possibilidade de utilizar maior percentual de mesclas.

GABRIELA MIRANDA /DIVULGAÇÃO/JC

Luiz Eduardo Kochhann

Fonte : Jornal do Comércio

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