Faria, da BRF, justificou flexibilização da “poison pill” durante teleconferência
Aprovada em assembleia geral extraordinária da BRF em 7 de abril, a alteração da cláusula de proteção à dispersão acionária (“poison pill”) despertou a atenção de analistas na última sexta-feira, acendendo um alerta sobre a possibilidade de movimentações importantes na composição acionária da companhia.

O tema entrou no radar durante a teleconferência realizada pela BRF para comentar o balanço do primeiro trimestre deste ano. “Curiosamente, o ponto que mais nos chamou a atenção não era relacionado aos resultados operacionais e financeiros”, apontou o BTG Pactual, em relatório assinado pelos analistas Thiago Duarte e Jose Luiz Rizzardo.

Basicamente, a alteração aprovada pelos acionistas da BRF flexibilizou a poison pill. Desde o dia 7 de abril, o gatilho para disparar uma oferta de compra para todos os acionistas da BRF é 33,33%. Em outras palavras, se um acionista atingir esse fatia das ações da empresa, terá de fazer uma oferta em iguais condições para todos os acionistas. Antes da aprovação, o gatilho que disparava a poison pill era de 20%.

Na prática, a alteração dá maior espaço para que um investidor aumente a participação na BRF. Durante a teleconferência, o CEO global da companhia, Pedro Faria, argumentou que a poison pill de 20% “estava até impedindo que acionistas que têm interesse possam eventualmente exercer a vontade de aumentar sua posição”. Ele não revelou, porém, se algum acionista teria demonstrado interesse.

Atualmente, os três principais acionistas da BRF não chegam a ter, cada um, 15% do capital da companhia, que tem controle difuso – uma das poucas do país. Dentre os principais acionistas, estão o fundo de private equity Tarpon (11,27%) e os fundos de pensão Petros (11,64%) e Previ (10,73%). Além desses três, apenas o fundo americano BlackRock tem mais de 5% das ações da BRF.

Em relatório, os analistas do BTG Pactual citaram que a participação somada de Tarpon, Petros e Previ da BRF é aproximadamente 34%. Nesse contexto, o BTG avaliou que qualquer investidor que deseje comprar uma fatia “controladora” na BRF teria de chegar a um acordo com ao menos dois desses fundos.

Outra possibilidade citada pelo BTG é o eventual interesse de um dos três fundos (Previ, Petros ou Tarpon) em aumentar a participação que já detêm na empresa. Procuradas pelo Valor, a Tarpon e a Petros não quiseram comentar. Por sua vez, a Previ informou “que não há negociação em curso” com ações da BRF, mas ressaltou fazer “gestão ativa da sua carteira de investimentos, analisando permanentemente oportunidades de investimento e desinvestimento”.

Faria, que é fundador e sócio da Tarpon, liderou o processo que levou o empresário Abilio Diniz para a presidência do conselho de administração da BRF, em 2013. O executivo assumiu o cargo de CEO da companhia em janeiro de 2015. Antes disso, comandou a área internacional da empresa brasileira.

Além de eventuais alterações da composição acionária da BRF, a situação dos acionistas minoritários também figurou como uma justificativa para a mudança da poison pill. “Consideramos que isso é proteção aos minoritários, principalmente no momento em que o valor da companhia está muito baixo”, disse Abilio Diniz, na teleconferência. Nos últimos 12 meses, as ações da BRF recuaram 22,9% na BM&FBovespa.

Apesar dos argumentos de Abilio, a mudança na poison pill foi criticada recentemente pelo ex-diretor de participações da Previ, Renato Chaves. “Espero estar errado, mas fica parecendo encomenda para algum acionista especial atingir 33,329999% e exercer o controle de fato”, disse Chaves, em publicação em seu blog no último dia 9.

Procurado pelo Valor, Chaves afirmou que as mudanças feitas pela BRF em seu estatuto podem ser encaradas como um passo atrás do ponto de vista de governança. Além disso, ele avaliou que a poison pill de 33,3% altera o espírito de controle difuso. “Acho que é preocupante poder ter alguém tão grande. Na verdade, eu acho que é esse o risco”, disse.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo
Fonte : Valor

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