Wesley Batista, da JBS: reorganização deve levar à redução no custo do capital
Maior empresa privada não financeira do Brasil, a JBS propôs ontem uma reorganização societária a partir da qual transferirá ativos responsáveis por cerca 80% de seu faturamento para uma nova empresa com sede na Irlanda. Batizada de JBS Foods International, a companhia a ser criada deverá ter suas ações listadas na bolsa de Nova York (NYSE).

Em entrevista ao Valor, o CEO global da JBS, Wesley Batista, disse que a mudança – que precisa ser aprovada por acionistas, credores e autoridades reguladoras – visa “refletir” a presença global da JBS, com uma “estrutura societária que represente o que a companhia se transformou”.

Fundada em 1953 como um pequeno frigorífico em Anápolis (GO), a JBS foi uma das chamadas ‘campeãs nacionais’ apoiadas pelos BNDES. Hoje, tem mais de 200 unidades espalhadas pelo mundo e, atualmente, o Brasil representa pouco mais de 10% das vendas da empresa. Líder global na produção de carnes, a JBS alcançou uma receita líquida de R$ 162,9 bilhões em 2015.

De acordo com Batista, a reorganização societária proposta trará “muitos benefícios” para a JBS. Entre eles, o empresário citou as vantagens de ser listada na NYSE, bolsa de liquidez muito superior à da BM&FBovespa. Além disso, argumentou, a base de possíveis investidores também se amplia e a JBS, sediada na Irlanda e com capital aberto nos EUA, poderá obter uma “substancial” redução no custo de capital. “[Passamos] a ter condição de acessar mais o mercado financeiro internacional”, disse ele, que seguirá à frente da empresa a partir do escritório em São Paulo.

A alteração também terá efeitos positivos sobre a política de hedge cambial adotada pala JBS. “Logicamente, tendo um balanço em dólar, não [haverá] o que temos hoje”, admitiu Batista, numa alusão indireta ao efeito dos derivativos nos resultados. Como atualmente a moeda funcional da empresa é o real, a JBS utiliza derivativos cambiais para se proteger da exposição ao dólar.

No ano passado, a política de hedge trouxe ganhos bilionários à empresa, mas com a alta do real a JBS deve ter fechado o primeiro trimestre no vermelho por conta das perdas com derivativos, projetam analistas. O balanço do período, cuja divulgação estava programada ontem, não havia sido publicado até o fechamento desta edição.

Questionado, Batista disse que o objetivo da reorganização não é obter vantagens tributárias. “É mais uma vantagem societária”, afirmou. Segundo ele, a companhia sequer calculou a taxa média de impostos que será paga com a nova estrutura, com sede na Irlanda. “Entendemos que não aumenta [a taxa], mas não podemos dizer que tem benefício porque não temos análise e esse não foi o foco do trabalho”, justificou.

A possibilidade da chamada “inversão fiscal” foi alvo de controvérsia recentemente nos EUA. No mês passado, a farmacêutica americana Pfizer desistiu de comprar a Allergan, sediada na Irlanda, e transferir assim sua sede legal para o território irlandês. A desistência da operação, que seria a maior transação da história da indústria farmacêutica, ocorreu após o governo americano endurecer as regras para a “inversão fiscal”.

No caso da JBS, a reorganização, que culminará com a transferência da sede para a Irlanda, não contempla todas as operações da empresa. A JBS S.A., que tem ações listadas na BM&FBovespa, continuará existindo, mas com um nome diferente – JBS Brasil – e mais ‘enxuta’, se é que se pode dizer isso de uma empresa que terá um faturamento anual de R$ 30 bilhões.

Na prática, quase todos os ativos que a JBS tem no exterior serão transferidos para a JBS Foods Internacional. A JBS Foods – subsidiária integral que é a dona da marca Seara e engloba as operações de aves, suínos e alimentos processados no Brasil – também será transferida para a JBS Foods International. Na JBS Brasil, só ficarão a operação de bovinos no Brasil, o negócio mundial de couro – que tem unidades de processamento na Vietnã, China e na Europa -, e os subprodutos do abate bovino (biodiesel, colágeno, entre outros).

A intenção dos executivos da JBS é que a JBS Foods International se torne a controladora da JBS Brasil. Para isso, os acionistas das empresa listada na bolsa paulistana terão a opção de trocar até 75% da fatia que terão na JBS Brasil por ações da JBS Foods International.

Se todos optarem pela troca, a JBS Foods International controlaria a JBS Brasil com uma fatia de 75%. Os 25% restantes, taxa mínima do ‘free float’ para as empresas que estão no segmento do Novo Mercado, não serão alterados. A proposta é manter as duas empresas abertas, uma em Nova York e outra no Brasil. Nesse sentido, Batista disse que não tem a intenção de fechar o capital da JBS Brasil.

Na reorganização, a JBS Foods International também criará um programa de Brazilian Depositary Receipt (BDRs), recibo de ações de companhias estrangeiras negociadas na bolsa brasileira.

Com um assento no conselho de administração e 23,89% das ações da JBS, o BNDES já conhece os planos da reorganização acionária, assim com os outros membros do conselho, disse Wesley Batista.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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