Se o cenário político confunde até produtores brasileiros, executivos estrangeiros das indústrias de máquinas também precisam ficar atentos para acompanhar o turbilhão de acontecimentos no Brasil. O país é um dos principais mercados mundiais e enfrenta a pior recessão em 25 anos em meio a um processo de impeachment da presidente. ZH conversou com três deles para entender como a crise é vista a partir do Exterior e como isso mexe na estratégia de cada empresa.

Andreas Klaus, presidente global da Case IH
“Vemos como período de consolidação”

Foto: Gaspar Nobrega / Divulgação Case IH

O austríaco Andreas Klaus garante que a situação do país de maneira alguma interfere nos planos da empresa para o Brasil. Bem humorado, apontas as mudanças recentes na Argentina para mostrar que a solução para a crise pode vir em um curto prazo.

Como o senhor vê a atual crise política brasileira? 
É muito difícil para quem é de fora. Nós acreditamos que é só uma questão de tempo para o Brasil estar em uma situação um pouco melhor. É um processo natural de limpeza. Nunca podemos olhar o problema em um ângulo de curto prazo. O desenvolvimento do mercado brasileiro nos últimos anos é enorme, não aconteceu em nenhum lugar do mundo. Vemos isso (a crise) como um período de consolidação e depois volta ao ritmo normal.

O senhor comentou mais cedo sobre o impacto de um novo governo na Argentina. Acredita que um novo presidente no Brasil seria a melhor solução?Muito difícil falar ou prever o que vai acontecer. É importante esperar o processo político normal. Na Argentina (a mudança), claramente ajudou. Como vê o mercado agrícola em 10 anos? Quem serão os principais personagens nesse mercado?Os Estados Unidos, como um mercado muito grande, sólido e estável. O Brasil segue uma potência mundial em relação à expansão de terra arada, e com ganhos de produtividade. Outro potencial de crescimento é a África. Diferentemente do Brasil, que é um mercado exportador, o desafio é tornar o continente autossuficiente em produção de alimentos.

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Que países?
No Norte, como Marrocos e Argélia e no Sul, como África do Sul. Desenvolver a agricultura na África é uma questão de interesse também para a Europa porque se as pessoas não têm comida suficiente acabam saindo de lá e em vez de 1 milhão de refugiados na Europa serão 10 milhões, uma situação muito pior do que já está hoje.

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Robert Crain, Vice-Presidente sênior das Américas da AGCO
“Não houve ajuste nos projetos do Brasil”

Foto: Divulgação / AGCO

Com mais de 20 anos de experiência no setor de máquinas agrícolas, o americano se define como uma pessoa que costuma ver o copo meio cheio ao invés de meio vazio. Com passagem em outras empresas do setor e em outros países, ele garante: o lugar certo para investir é no Brasil.

Como o cenário brasileiro impacta na visão de médio prazo da empresa?
Talvez eu tenha uma visão peculiar a respeito disso, porque sou americano. Nosso planejamento é de longo prazo. A situação que o país vive, política e financeira, é problema de curto prazo e logo vai mudar. Por isso, estamos trabalhando e continuamos investindo. A boa notícia é que nas reuniões de diretoria do grupo não houve nenhum ajuste nos projetos previstos para o Brasil. Tudo isso continua e estamos apostando 100% nesse mercado.

O senhor é otimista em relação ao Brasil, diferentemente dos executivos brasileiros. Por quê?
Mais uma vez: é uma perspectiva diferente por ser alguém que está observando a situação de fora. Todo o segmento agrícola está enxergando o copo meio vazio. O cenário político traz distrações. Uma vez superado, a recuperação será bastante rápida.

Como o senhor compara a situação da agricultura com outros países do mundo?Quando você não está aqui 100% do seu tempo, consegue comparar a situação da agricultura brasileira com a argentina, a americana e a canadense. Me sinto um bom juiz para avaliar quem está melhor. Do ponto de vista de agricultura, o Brasil está em uma ótima posição, senão na melhor. É onde eu investiria o meu dinheiro.

Pode haver mais demissões nas fábricas?
Todos ajustes que ocorrem agora são de curto prazo, mas a AGCO não vai colocar em risco todo o investimento feito no Brasil porque nossa visão é mais de longo prazo. Qualquer eventual ajuste, é uma simples adaptação a uma situação de curto prazo.

Carlo Lambro, presidente global da New Holland
“O importante é ter estabilidade”

Lambro (e) e Maritano (d)Foto: Kraw Penas / Divulgação New Holland

Com a experiência de ter comandado as operações da New Holland na Península Ibérica, Carlo Lambro se comunica muito bem em português. Ele demonstra a confiança na recuperação brasileira no curto prazo e aponta a experiência vivida pela vizinha Argentina.

Como o senhor está vendo a situação no Brasil hoje? É possível fazer uma relação entre as operações Mãos Limpas e a Lava-jato?
Como empresa, não comentamos movimentos políticos. Somos apartidários. Mas sendo o Brasil uma importante área de negócios para a New Holland, a atenção para o momento político é muito grande. O importante é ter estabilidade. Há uma expectativa positiva na medida em que há um vizinho, a Argentina, onde as coisas estão melhorando. Lá, a situação é um pouco diferente na medida em que o novo presidente foi eleito pelo povo.

Considerando que os financiamentos a juros reduzidos impulsionaram o setor de máquinas e implementos nos últimos anos, qual o impacto de um possível ajuste fiscal nas contas públicas? 
Essa pergunta é mais brasileira, vou pedir ajuda do nosso vice-presidente para América Latina, Alessandro Maritano. Acho que nós, como marca, não temos a capacidade de influenciar o que vai acontecer na política local. Nem queremos. Estamos trabalhando para estarmos preparados para qualquer cenário político-econômico que possa aparecer. Temos a obrigação de olhar o país no longo prazo. Não vamos para nenhum tipo de investimento por uma questão conjuntural. A capacidade que o Brasil tem de sair rapidamente de crises é conhecida em todo o mundo. Como italiano, o que posso dizer é que vivemos o Mãos Limpas lá na Itália e o Brasil aprendeu conosco. Os processos foram parecidos e provavelmente a conclusão também seja. Lá melhorou muito, a Itália teve uma limpeza política importante, que gerou uma nova República e que entregou um país mais ágil. No Brasil, a recuperação será mais rápida porque o país tem recursos naturais.

Fonte : Zero Hora

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