A seca que dizimou as lavouras de soja e milho da Bahia na atual safra 2015/16 trouxe efeitos perversos também para o algodão do Estado, segundo maior produtor nacional da fibra. Com a colheita recém-iniciada, a expectativa é de uma quebra média na casa dos 30%, o que já levou muitos agricultores à renegociação financeira junto a tradings e bancos, além de ter acendido o sinal amarelo para a indústria têxtil.

“A última chuva foi em 10 de março. Mesmo que chova agora, nada vai mudar, não temos mais esperança”, diz Júlio Cézar Busato, presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). Segundo ele, a previsão inicial era de um rendimento de 270 arrobas (3,96 mil quilos) de algodão em caroço por hectare, mas a estimativa atual é de 180 arrobas (2,64 mil quilos), queda de 33%. No ciclo passado, a média foi de 260 arrobas, ou 3,9 mil quilos.

Em relatório divulgado terça-feira, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) reduziu a previsão de produtividade na Bahia de 3,52 mil para 3,16 mil quilos por hectare. Com isso, a estimativa de produção no Estado passou a 759,6 mil toneladas de caroço, e 303,8 mil toneladas de pluma. Se confirmada, será um recuo de 30% na safra ante 2014/15. A Bahia responde por pouco mais de 20% da safra nacional.

Conforme Busato, o atraso das chuvas entre outubro e dezembro de 2015 dificultou o plantio de soja e milho no oeste da Bahia, e empurrou a semeadura do algodão, que não completou seu ciclo. “As ‘maçãs’ [espécie de cápsula dentro da qual se forma o algodão] ficaram pequenas pela falta d’água e a produtividade desmoronou”. A Vanguarda Agro, importante produtora da fibra, já anunciou que deve deixar a Bahia na próxima safra 2016/17.

Em março, a Aiba cogitou pedir ao governo federal a decretação do estado de emergência em nove municípios da região devido à seca, mas optou por tratar diretamente com instituições financeiras, tradings e fornecedores de insumos. Reuniões com esses grupos já aconteceram, e estão todos “muitos receptivos” em manter o crédito aos produtores, segundo Busato. Mas renegociações caso a caso estão sendo feitas por aqueles com problemas mais sérios.

Para Éder Silveira, consultor de algodão da FCStone, a quebra na Bahia é sentida não apenas pelo volume, mas também porque é esse o primeiro algodão a entrar no mercado, uma vez que os volumes iniciais de Mato Grosso (maior produtor do país) começam a chegar apenas em junho. A produção mato-grossense, lembrou Silveira, também sofre em algumas regiões com chuvas abaixo da média. “E a Bahia tem por histórico fornecedor algodão de qualidade, justamente o que não tem no mercado atualmente”, acrescentou.

Ele acredita, porém, que a alta de preços ao produtor será limitada pela demanda mais restrita por parte da indústria, que vem enfrentando queda no consumo de têxteis devido à delicada situação econômica do país. O indicador Cepea/Esalq para o algodão com pagamento em oito dias ficou em R$ 2,694 por libra-peso ontem, alta de 0,97% no acumulado de maio.

Do lado dos exportadores, não há, ao menos agora, grande preocupação com os embarques de algodão. Marco Antonio Aluisio, presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), confia que uma redução na Bahia possa ser compensada por Mato Grosso. “Nos últimos dois anos, com novas variedades transgênicas, a qualidade entre os dois Estados está mais similar”, disse. A Anea estima que o Brasil terá excedente exportável de cerca de 650 mil toneladas de pluma em 2015/16, considerando um consumo interno de 700 mil toneladas.

Para ele, a dificuldade pode ser maior para a indústria têxtil do Nordeste, onde estão grandes fabricantes, que normalmente se abastecem na Bahia. Como poderão ter de recorrer a Mato Grosso, essas empresas arcarão com o frete mais elevado.

Segundo Alex Kurre, coordenador do comitê de algodão da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o tema tem sido acompanhado com atenção pelo setor. A indústria tem alguma flexibilidade com o tipo e o comprimento da fibra, por exemplo, por isso pode se ajustar a uma eventual redução da oferta de algodão de qualidade, disse. “Mas já estamos com o radar ligado para o caso de algum problema. Se o mercado internacional demandar algodão para exportação em um volume que somado com o mercado interno ultrapasse a produção, ficaremos mais preocupados”, concluiu.

Por Mariana Caetano | De São Paulo

Fonte : Valor

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