Num ano em que a produção brasileira de leite recuou quase 3%, o ritmo de captação das 15 maiores empresas de lácteos do Brasil também perdeu força, refletindo, salvo alguns casos particulares, a menor oferta. De acordo com o ranking da Leite Brasil – associação que reúne produtores -, as 15 maiores empresas de lácteos do país captaram juntas 9,857 bilhões de litros de leite em 2015, apenas 1,2% acima do que adquiriram no ano anterior. Nesse cenário, considerando a capacidade total instalada dessas empresas, a ociosidade foi de 38%.

Embora tenha entrado no ranking da Leite Brasil individualmente em 2015, a multinacional suíça Nestlé seguiu na primeira posição, com uma recepção de 1, 768 bilhão de litros. O número é 11,6% menor do que o de 2014. A redução, conforme explicou a Nestlé, deve-se à reorganização da área de captação de leite da companhia. Até meados de 2014, a Nestlé e a neozelandesa Fonterra adquiriam a matéria-prima por meio de uma parceria na DPA, mas após a reorganização passaram a captar separadamente.

Em segundo lugar no ranking, ficou a francesa Lactalis do Brasil, com uma captação de 1,592 bilhão de litros. O volume é quase 12% superior ao de 2014. O presidente da Lactalis para a América Latina, Patrick Sauvageot, explica que os dados de 2014 consideram apenas a captação pela BRF, que vendeu seus ativos de lácteos para a Lactalis em setembro daquele ano. Já em 2015, incluem os ativos adquiridos da BRF e também os da LBR, igualmente comprados pela francesa.

Num cenário de persistente escassez na oferta de leite no país, Sauvageot evitou fazer estimativa sobre quanto leite a empresa deve adquirir este ano. “É difícil fazer previsões porque não se sabe quanto haverá de matéria-prima”, afirma. “Nosso objetivo é aumentar a produção (de lácteos) no Brasil, mas tem de aumentar a produção de leite”.

Ele destaca a política de compras da Lactalis, que prioriza a aquisição direta dos produtores, num programa que inclui assistência técnica e que visa a melhoria da qualidade do leite e a fidelização do fornecedor. Conforme o ranking da Leite Brasil, a empresa francesa foi a que mais fez compras diretas em 2015 entre as que fazem parte do grupo. Foram 13.381 produtores. “O objetivo é manter nossa base de produtores, mas eles mesmos estão produzindo menos”, lamenta.

Para o presidente da Leite Brasil, Jorge Rubez, a tendência é que a produção de leite aumente “um pouco” no período das águas este ano, o que deve levar os preços a recuarem também “um pouco”. “Na hora em que cair, será um atrativo para as pessoas consumirem um pouco mais”, afirma.

Valter Galan, analista da MilkPoint, consultoria especializada em lácteos, destaca no ranking de 2015 o baixo uso de capacidade instalada, o que reflete a menor oferta de leite em decorrência de preços baixos e problemas climáticos. De acordo com a Leite Brasil, as 15 empresas tinham uma capacidade de processamento de 15,884 bilhões de litros de leite no ano passado e beneficiaram juntas 9,857 bilhões de litros. Isto é, a utilização foi de 62% da capacidade.

No ranking, que em 2015 teve 15 empresas, Itambé e Laticínios Bela Vista mantiveram suas posições (ver texto abaixo), mas houve destaques, como a Vigor, que estava no 11º lugar em 2014 e subiu para oitavo no ano passado, superando a francesa Danone em recepção de leite.

De acordo com o presidente da Vigor, Gilberto Xandó, o avanço da empresa na categoria iogurtes no país é uma das razões para o aumento de mais de 50% na captação de leite entre 2014 e 2015. “Crescemos quase 30% na categoria iogurtes. E no [iogurte] grego, crescemos 46%”, disse. O aumento das exportações de leite em pó pela Vigor em 2015, para a Venezuela, também demandaram mais leite, informa.

Além disso, diz Xandó, a empresa avançou no mercado de queijo ralado, no qual tem fatia de 28%. Outra razão para o incremento na captação é que a Dan Vigor – a Vigor adquiriu os 50% restantes da empresa em setembro de 2014 – passou a ser computada na captação de leite em 2015.

Já a recepção de leite da Itambé, joint venture entre Vigor e Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais (CCPR), caiu 4,4% em 2015. Ricardo Cotta, diretor de relações institucionais da Itambé, diz que a retração está relacionada à menor exportação de leite em pó – produto que demanda muita matéria-prima – pela empresa em 2015. Para se produzir um quilo de leite em pó integral são necessários 8,2 litros de leite fluido.

Cotta pondera que o fato de a captação ter recuado não significa que a empresa não esteja crescendo. “Grande parte do crescimento em 2015 e no início de 2016 está se dando em produtos de maior valor agregado”. Segundo ele, em 2015, a receita da Itambé com iogurtes subiu 20,4% sobre o ano anterior. No primeiro quadrimestre de 2016, a alta já é de 33%.

O executivo também está pessimista com a oferta de leite este ano e projeta que a captação da Itambé deve cair 6%. O número está em linha com a estimativa da MilkPoint sobre o primeiro quadrimestre deste ano. Segundo Valter Galan, na média Brasil, a captação de leite recuou 6% a 7% sobre igual intervalo de 2015. A estimativa é que a produção brasileira tenha somado 34,18 bilhões de litros no ano passado, considerando leite formal e informal.

A Danone, cuja captação recuou 12,3% em 2015, não respondeu ao pedido de entrevista.

Com sua posição inalterada no ranking da Leite Brasil, o Laticínios Jussara, ampliou em 5,5% sua captação em 2015. Laércio Barbosa, diretor da empresa, explica que esse crescimento se deu em decorrência do aumento da compra de leite no chamado mercado spot (negociado entre as empresas). Segundo ele, houve maior demanda pela matéria-prima no ano passado para atender a então recém-lançada linha de leite longa vida em garrafa pet. Preocupado com a escassez de oferta hoje, Barbosa diz que a empresa “fará um esforço” para repetir o índice de crescimento de 2015.

Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

Fonte : Valor

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