Linha de porcionamento de salmão em fábrica do Chile; algas reduziram oferta
Consumir salmão no Brasil costumava ser para poucos. Mas agora tende a aparecer num círculo ainda mais restrito de consumidores diante da remarcação expressiva de preços desse peixe de águas geladas, importado sobretudo do Chile. Problemas climáticos no país vizinho estão provocando uma ruptura na criação local de salmões, levando à queda nos estoques e a reajustes em sua cotação. E o encarecimento do produto, que tende a continuar, já tem mudado comportamentos do consumidor.

Apenas nos primeiros quatro meses do ano, o preço do pescado subiu 13,7% para o consumidor no Brasil, de acordo com o IPCA, superando com folga a inflação do período (3,25%) e se aproximando rapidamente da variação do ano passado, de 20,5%.

Na Ceagesp de São Paulo, o maior centro comercializador de pescados do país, o preço do salmão acumulou alta de 58,6% entre janeiro e abril deste ano e está sendo negociado a R$ 37,89 o quilo no atacado, no caso do produto de melhor qualidade.

O mercado reage a uma proliferação de algas tóxicas nas áreas produtoras no Chile, o principal fornecedor de salmão ao Brasil.

Esse desequilíbrio ambiental, percebido mais fortemente desde o início do ano, está associado ao aumento da temperatura do mar em decorrência do fenômeno climático El Niño. Especialistas do setor estimam que a produção chilena da salmão deva recuar entre 20% e 25% este ano, e permanecer inalterada em 2017. A queda ocorre no momento em que a Noruega, outro grande produtor, também enfrenta problemas com doenças em sua produção. Para analistas, a combinação pode levar à queda de 10% a 15% nos estoques mundiais do peixe em 2016.

“É a tempestade perfeita”, disse ao jornal britânico “Financial Times” o CEO da noruguesa Marine Harvest, Alf-Helge Aarskog, que detém áreas de criação no Chile.

Maior varejista brasileiro, o Grupo Pão de Açúcar confirma que os preços do produto tiveram uma alta significativa neste ano – o quilo do salmão importado custava à varejista US$ 5,00 em março, subiu para US$ 8,30 em abril e voltou a US$ 7,40 em maio. Como o ciclo do salmão é de dois anos, e os custos de produção são altos, a empresa não acredita que os preços voltarão ao patamar de um ano atrás.

“Estamos avaliando com os produtores chilenos todas as alternativas, mas acreditamos que a alta no custo de produção deve ser mantida até o fim deste ano pelo menos”, diz Rafael Monezi, gerente comercial do GPA. Segundo ele, até agora o grupo tem conseguido absorver metade do repasse.

O GPA tem tentado trabalhar com alternativas de oferta, como comprar volumes maiores da Noruega e do Alasca. Mas diz que a conta não fecha – o frete é mais caro e perde-se os benefícios tarifários da comercialização com o Mercosul. Além disso, o salmão do Alasca tem gosto diferente daquele com o qual o brasileiro se acostumou.

Para escapar dos preços salgados, os consumidores vêm substituindo o salmão por peixes mais baratos, como sardinha, cação e tilápia, diz Flavio Godas, economista da Ceagesp. Mas aí entram os “fundamentos”: a migração do consumo já impulsiona os preços de outros pescados. Em abril, a sardinha foi o peixe que mais subiu no entreposto, com alta de 39,9%.

Por Bettina Barros e Camila Souza Ramos | De São Paulo
Fonte : Valor

Compartilhe!