Fatores climáticos prejudicaram o desenvolvimento da fruta ao longo do ano

Fatores climáticos prejudicaram o desenvolvimento da fruta ao longo do ano | Foto: Daniel Isaia / Agência Brasil / CP

Fatores climáticos prejudicaram o desenvolvimento da fruta ao longo do ano | Foto: Daniel Isaia / Agência Brasil / CP

A safra da uva no Rio Grande do Sul sofreu este ano a maior quebra já registrada no estado: uma redução de 57% em relação à colheita do ano passado. Segundo dados preliminares do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), foram colhidos em 2016 apenas 302,2 milhões de quilos de uva em território gaúcho. Em 2015, a safra alcançou 702,9 milhões de quilos.

A principal causa da quebra histórica foi uma sucessão de fatores climáticos que prejudicaram o desenvolvimento das uvas ao longo do ano, como geadas e excesso de chuvas. Como consequência do prejuízo, o preço de produtos derivados da uva, como vinhos e sucos, deverá sofrer acréscimo.

Já os viticultores (produtores de uva) estão preocupados com o fato de a quebra ter ocorrido justamente em um ano em que o custo da produção foi maior, devido ao aumento dos preços dos insumos e dos impostos no estado. Com a colheita de menos da metade do esperado em volume de frutos, muitos deles terão dificuldades para investir na próxima safra. “Está sendo difícil compensar o prejuízo. Se os produtores repassarem todo o custo de produção para o preço do produto, não conseguem vender nada. Eles vão ter que assumir alguns desses custos”, disse Dirceu Scottá, presidente do Ibravin.

A necessidade de aumentar o preço final dos produtos da uva é encarada com preocupação pelos produtores. “Considerando o aumento dos impostos e a situação econômica do país, estamos estimando uma queda de pelo menos 10% no consumo este ano”, afirmou Itacir Pozza, presidente da Vinícola Aurora. A cooperativa, composta por 1.100 famílias de viticultores, teve um prejuízo menor do que a média estadual: recebeu 51,3% do volume correspondente à safra de 2015 – um total de 33,6 milhões de quilos de uva.

O Rio Grande do Sul é o maior produtor de uva do Brasil. O estado responde por cerca de 90% de toda a produção nacional, conforme os números do Ibravin. Em terras gaúchas, existem em torno de 15 mil propriedades vitícolas que abrangem área total de 40 mil hectares. A maior parte delas está localizada na Serra, no nordeste do estado, e na região da Campanha, na metade sul do território gaúcho.

Quebra histórica

Os viticultores mais antigos da Serra gaúcha afirmam que não se lembram de um resultado tão baixo quanto o de 2016. Remy Valduga, 75 anos, trabalha nas terras herdadas do pai, no Vale dos Vinhedos – região localizada entre os municípios de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul e Garibaldi. Segundo ele, a quebra da última colheita é histórica.

“Houve algumas quebras no passado que foram esporádicas, regionais. Eu nunca havia visto uma tão abrangente quanto a deste ano, que atingiu toda a população dos produtores de uva”, afirmou o viticultor. Ele contou que perdeu 70% da safra em sua propriedade, de um hectare e meio: “Eu esperava produzir entre 60 mil e 70 mil quilos, mas só consegui colher cerca de 22 mil quilos”.

Nos arquivos do Ibravin não existem registros de um resultado tão ruim quanto o da safra 2016, no Rio Grande do Sul. “Em conversas com os mais velhos, nós chegamos à conclusão de que essa é a maior quebra em mais de 50 anos”, afirmou o presidente do instituto, Dirceu Scottá.

O presidente da Aurora, Itacir Pozza, lembrou que uma safra em 1982 também foi prejudicada pela geada. “Mas, depois, não teve tanta chuva e granizo quanto no ano passado. Uma quebra como essa que estamos enfrentando, creio que seja a primeira vez”, disse Pozza.

Pouco volume, qualidade superior

Apesar do volume da colheita ter sido decepcionante para os produtores, a qualidade da uva da safra 2016 empolgou os apreciadores de vinho. “Eu comentei com outros enólogos (especialistas na produção de vinhos] que achei uma pena essa safra ter sido tão pequena, porque ela foi excepcional”, destacou Scottá. Ele afirmou, no entanto, que foi justamente a redução da quantidade de frutos nas videiras que elevou a qualidade da uva.

Itacir Pozza comentou como funciona a relação entre quantidade e qualidade na viticultura: “Quando há menos uvas na videira, ela consegue concentrar mais energia em cada fruto. Isso é próprio da planta”. A baixa produção na safra 2016 também é vista pelos produtores como uma esperança para a próxima colheita. “A planta conseguiu descansar melhor este ano. Ela guardou mais energia e se prepara para uma safra maior no ano que vem”, estimou Pozza.

Scottá lembrou, no entanto, que existem parreirais onde as videiras foram danificadas pela geada e pelos granizos: “Isso deve afetar os próximos dois anos de produção. Também temos que considerar que nem todos os viticultores estarão capitalizados o suficiente para investir em uma safra cheia para 2017”.

Produção aliada ao turismo

O produtor Remy Valduga, que perdeu 70% da colheita em seu parreiral, garantiu que está preparado para superar o prejuízo da safra. Além das uvas, ele disse que tem outras fontes de renda: além de escritor com vários livros publicados, está investindo no ramo de turismo. Valduga, de 75 anos, recebe viajantes em sua propriedade durante todo o ano.

“O turista chega aqui e não está preocupado se a safra foi boa. Ele vem atraído por um idioma diferente, por um cenário diferente, por uma cultura diferente e por um cardápio diferente. A vitivinicultura é o grande cartão de visitas da Serra gaúcha”, ressaltou.

A oportunidade de investir no turismo também atraiu o produtor Raimundo Zucchi. Ele tem um terreno na Linha Eulália, zona rural de Bento Gonçalves, onde planta sete variedades de uva. Há dois anos e meio, ele transformou a propriedade em um sítio de lazer para receber visitantes. A nova infraestrutura inclui churrasqueiras, lagos para pescarias e uma cabana para a venda de souvenirs e produtos coloniais.

“É preciso se aperfeiçoar para começar. Quem diz que vai fazer turismo em seis meses, um ano, não entende nada do assunto”, afirmou o viticultor, de 55 anos. Ele lembrou que fez um curso de quatro anos para garantir a administração do negócio. Zuchi pretende transformar o turismo na principal economia da propriedade.

“No momento, a uva ainda é a principal fonte de renda, mas eu espero que isso mude com o tempo. Com a quebra da última safra, o dinheiro que entrou não vai dar nem para pagar as despesas. Vou precisar de pelo menos dois anos para recuperar o prejuízo”, revelou. Dirceu Scottá afirmou ainda que vê no turismo uma excelente saída para diversificar a economia dos viticultores. Para ele, a alta do dólar vai recompensar, em 2016, aqueles que investiram no setor porque, na sua opinião, as pessoas tendem a viajar mais dentro do próprio país.

“Mesmo no verão, tivemos um grande movimento de turistas aqui na Serra. A expectativa de o inverno começar mais cedo também anima esse setor econômico. Os produtores que estão investindo no turismo rural certamente estão conseguindo reverter melhor a quebra da safra da uva”.

Agência Brasil

Fonte : Correio do  Povo

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